Reflexões sobre o mal

ojoO problema do mal que tanto inquieta ao homem moderno se soluciona em Jesus Cristo. Como em definitiva todo problema humano se soluciona em Jesus Cristo.

Como ensinou o Concilio Vaticano II, numa frase repetida incessantemente por São João Paulo II, “o mistério do homem se esclarece somente no mistério do Verbo Encarnado“.

Muitos autores católicos iluminaram a definição sobre o mistério do mal e isso desde diferentes visualizações, apresentando uma riqueza que é insondável porque se basea no Ser mesmo de Deus e da sua Vontade para conosco.

Mas este problema inquieta ao homem moderno porque se afastou de Jesus Cristo. E afastando-se da solução do problema fica somente o problema.

Nas situações como a que estamos vivendo aqui em Iraque, o escândalo do mal ressurge com mais força: Como explicar tanta violência, tanta injustiça, tanto ódio? Como explicar a absurda loucura do homem que ignora a clara verdade que expressava de um modo admirável um sacerdote argentino “si os homens conhêssecem as vantagens de ser boas pessoas seriam bons por conveniência“?

Como uma pessoa que é desafiada permanentemente por motivo deste problema e deste escândalo. Apresento um texto do Cardeal Giacomo Biffi que dá muita luz ao tema da permissão de Deus ao mal por excelência, ou seja o pecado.

Que Deus os abençõe!

 

PECADO E PERDÃO NO PLANO DE DEUS
por Giacomo Biffi

Eu penso que foi São Ambrosio quem, na tradição cristã, expressou com maior insistência e força a convicção que o plano de Deus, ou seja o pecado, tem sua preciosa parte positiva e; por tanto forma parte do começo do projeto que deu existência a este universo que de fato existe.

Ele percebe em forma bastante viva o sentido do pecado, da sua gravidade, da sua universalidade e da sua presença determinativa na vida do homem. Porém a consideração do pecado sempre é invocada por ele para que surja e se imponha em atenção a misericórdia divina, a que é dada a nós em Cristo e é a característica primária desta ordem providencial. Daí a insistência com que ele afirma da “utilidade” espiritual que a graça chega tirar também sempre das mais graves transgressões.

Eu proponho reflexionar sobre algumas das numerosas frases ambrosianas que podiam ser citadas.

Minha culpa se converteu para mim em preço da redenção, e através dela Cristo veio até mim. Por mim Cristo provou a morte. É mais aproveitosa a culpa que a inocência. A inocência me fez arrogante, a culpa me fez humilde” (sobre Jacó e a vida bem-aventurada, I, 21).

O Senhor sabia que Adão cairia para ser depois redimido por Cristo. Feliz queda, que tem uma reparação mais bela!“. Esta frase a encontramos logo parafraseada no Exultet [da vigília de Pascóa]: “O felix culpa…” (Comentário ao Salmo 39, 20).

Nós, que pecamos muito, ganhamos muitos, porque a tua graça nos faz ser mais bem- aventurados que a nossa ausência de culpa” (Comentário ao Salmo 37, 47).

O mal tem inclusive em si uma utilidade e o mal se insinuou também nos santos por uma vontade providencial do Senhor” (Apología de Davi, 7).

Oh, Senhor Jesus, sou mais devedor dos ultrajes que sofrestes por minha redenção, mas não de teu poder para minha criação. Para nós teria sido inútil nascer, se não nos houvesse beneficiado ser redimidos“. Encontramos reproduzida literalmente esta frase no Exultet: “Nihil enim nasci profuit nisi redimi profuisset” (In Lucam II, 41).

A culpa nos beneficiou mais que o que nos prejudicou, porque deu oportunidade a misericórdia divina de redimir-nos” (Sobre a instituição das virgens, 104).

Deus quiz que houvesse mais homens para salvar e para perdoar pecados, que ter somente ao único Adão que ficasse livre da culpa” (sobre el Paraíso, 47).

A coroação desta pequena antología não poder ser outra que o extraordinário pensamento com o qual conclui seu comentário aos seis dias da criação. E, precisamente o número de citas feitas até aqui (que poderia acrecentar-se muito mais) nos persuade que a afirmação não se deve a uma oratória despreocupada, senão que está bem meditada e constitui provavelmente o punto de apoio de toda sua concepção teolôgica pessoal.

Gratias ago Domino Deo nostro, qui huiusmodi opus fecit, in quo requiesceret. Fecit caelum, non lego quod requieverit, fecit terram, non lego quod requieverit, fecit solem et lunam et stellas, nec ibi lego quod requieverit, sed lego quod fecerit hominem et tunc requieverit habens cui peccata dimitteret“.

Agradeço ao Nosso Senhor Deus que tem criado uma obra tão maravilhosa na qual encontrar seu descanso. Criou o céu e, não leio que haja descansado; criou o sol, a lua e as estrelas e, não leio que então haja descansado; porém leio que criou o homem e que nesse momento descansou, ao ter um ser ao que perdoar os pecados” (Hexamerón, IX, 76).

Come se vê, de acordo com São Ambrosio, Deus cria o universo para o homem e, cria o homem para poder ser misericordioso. Não podemos dizer que criou ao homem pecador ou para que peque; entretanto devemos dizer com certeza que ao descanso último de Cristo, na morte redentora e, a manifestação da misericórdia divina; representam o sentido último e mais elevado da criação.

A liturgia ambrosiana parece fazer-ser eco da voz de seu pai e mestre, quando num de seus prefácios proclama: “Te inclinaste sobre nossas feridas e nos curaste, nos diste uma medicina mais forte que nossas chagas, uma misericórdia mais grande que nossa culpa. Assim também o pecado, devido a teu amor invencivél, serviu para elevar-nos à vida divina” (16º  domingo do tempo ordinário).

Deus é sempre o primeiro, por isso sua misericórdia não é posterior ao pecado senão que o antecipa. É verdade que a piedade divina se derrama sobre o mundo para remediar a culpa, mas também é mais profundamente certo que a culpa é recolhida no projeto eterno para que possa manifestar-se o perdão.

Deus pôde escolher entre infinitos mundos possivéis. Nenhum deles houvesse podido manifestar todas as perfeições divinas, cada um deles houvesse manifestado alguma. Ao escolher uma ordem totalmente centralizada no seu Filho feito homem, cruxificado e ressuscitado, redentor e cabeça de uma multidão de irmãos, o Pai preferiu um universo, mais além de qualquer outro, que expressasse sobre tudo sua alegria de perdoar e exaltasse no homem a humildade do amor penitente.

Então se nos faz mais claro a verdade da afirmação de Jesus que “existe mais alegria no céu por um pecador que se converte, que por noventa e nove justos que não necessitam de conversão” (Lc 15, 7).

O pecador que se arrepende expressa de modo direto o sentido específico e o valor emergente deste universo querido de fato por Deus.

Assim chegamos a compreender que nossas infidelidades, nossas ignorâncias, nossos “não” caprichosos (pelos quais somos e devemos ser humilhados e confundidos) podem converter-se na ocasião para uma vida espiritual mais intensa e, que nossa mesma culpa está vencida e é levada em direção ao nascimento da mais grande força do amor do Pai que salva.

É um sofrimento ver-se na própria mezquinharia. Mas justamente quando eu me reconheço mezquinho, eu me vejo precisamente; por isso sou chamado à salvação e perto a meu Redentor: meu pecado não tem tempo para expressar-se, que já está superado e dissolvido pela vontade divina da redenção.

Ao final existe como uma alegria que dói, que não esquece as infidelidades e não deixa de chorar por elas, mas que não alcança nunca mais ver-las, exceto como já superadas pelo mais grande impulso da misericórdia do Pai.

Tagged , , . Bookmark the permalink.

Deixar uma resposta