O sacerdote que vive em Iraque e o assustador avance dos jihadistas do EI

O padre Luis Montes chegou a Bagdá em 2010 e testemunha com impotência “a desintegração” desse país; seu angustiante relato a LA NACION sobre a ameaça do Estado Islâmico

DSC_0307No dia 31 de outubro de 2010, uns seis homens armados com metralhadoras invadiram a missa dominical da igreja sirio-católica Nossa Senhora da Salvação, em Bagdá. Morreram 58 pessoas, entre eles, dois sacerdotes. As cruzes e outros símbolos religiosos foram quebrados em pedaços. O grupo jihadista Estado Islámico em Iraque atribuiu a responsabilidade do ataque. Dias depois, chegou a essa cidade para instalar-se o padre argentino Luis Montes, enquanto se aguçava o exôdo dos cristãos. Hoje, quatro anos depois, o sacerdote testemunha com impotência a maior “limpeza étnica” no conflitivo país, ameaçado pelo avanço desse grupo jihadista.

Numa comunicação telefônica com LA NACION, o padre Montes se apressa em aclarar que ele, na Catedral de rito latino São José e Santa Terezinha do Menino Jesus, de Bagdá, não convive com as atrocidades do Estado Islâmico (EI), já que a capital está rodeada por um operativo de segurança que, por agora, o grupo extremista não pode contornar. Entretanto, a angustia chega a sua voz quando fala sobre o sofrimento dos cristãos, entre outras minorías, do norte do país que morrem ou fogem diante da violenta ação de EI, conhecido mundialmente pelos videos das decapitações dos reportes americanos.

“As noticias que chegam do norte são uma crueldade nunca antes vista. Este grupo [EI] comete atos violentos e, además os publica. Crucifixões; decapitações inclusive de crianças de 10 anos; sequestros de mulheres para dar -las aos soldados e vender-las, antes de torturar-las para que sejam muçulmanas… Estamos vendo a desintegração deste país que gostamos tanto”, lamenta o padre Montes, um religioso bonaerense, nascido na localidade de Darregueira, de 44 anos.

Junto ao padre Jorge Cortés, ambos do Instituto do Verbo Encarnado, são os únicos sacerdotes sul americanos no país e, por isso são responsáveis de uma página de Facebook e um blog aonde relatam em espanhol como é o dia à dia nesse país, o que consideram que é a sua maior contribuição. Entretanto, não é a única. Además, recebem pequenas doações que destinam principalmente aos campos de refugiados do norte, a zona más afetada pelas atrocidades do EI e, também guardam reservas porque crêem que os deslocados começaram a chegar à capital em busca de maior segurança.

No norte, relata Montes, ocorreram histórias desoladoras. O Estado Islâmico chegou sem piedade com a intenção de “matar a qualquer um que não seja muçulmano”, o qual levou a mais de um milhão de pessoas a deslocar-se, dentro ou fora da fronteira. Nos campos de refugiados de Kurdistão agora vivem submergidos na incerteza muitos destes cristãos perseguidos.

“Os refugiados não têm nada. Lhes roubavam as alianças dos dedos; os brincos de ouro dos  bebês; inclusive os auriculares a um menino de 8 anos para tirar-lhes as pilhas. Eles ficaram sem nada e de repente estão vivendo em campos de refugiados sem possibilidades de conseguir algo”, relata o sacerdote. Ao instante, destaca a “organização” das igrejas dessa região, que com as doações que chegam de outras parroquias do mundo tentan fazer “desde o zero” um lugar habitável, com comida, água potável e proteção do calor de até 60 graus e; sem epidemias.

LIMPEZA ÉTNICA

Segundo as cifras oficiais da Igreja em Iraque, antes da aterrissagem militar americana no país em 2003, havia cerca de um milhão e meio de cristãos. O Patriarca católico-caldeu do país, o rito mais popular ali, Luis Rafael Sako I calcula que atualmente existe somente 300.000 e teme que, debido a ofensiva de EI, restam 50.000.

40-5970“É uma limpeza étnica e religiosa: matam aos que não pensam como eles. E se segui assim, isso se vai transformar num genocidio. Se está buscando o exterminio neste país. Se odia a cruz de Cristo. Os cristãos são os primeiros a serem eliminados”, diz o padre argentino.

Montes, como párroco da catedral de Bagdá, é o encarregado de assinar as certidões de batizados necessários para poder sair do país, com o qual tem um termômetro para medir como impactam as noticias do  norte na capital. Por exemplo, na ultima terça-feira assinou 20 certidões.

“Eu prefereria que  [as familias] ficassem mas, não podemos fazer pressão, nos meter numa decisão tão pessoal. Eu lhes faço notar coisas que eles não tem presente: que quando se vajam vão ter que adaptar-se a outra cultura, conseguir trabalho. Essas coisas são explicadas porque en meio da dificuldade pensam que aonde quer que vajam vão a estar melhor. Mas nem sempre é assim. E, depois já não podem voltar ao país”, acentúa.

“Em Bagdá faz pouco tempo muitos queriam ficar. Agora já não existe esperança de que exista a paz. Alguns nem ao menos querem ir-se a outro país árabe. Para a Igreja, isso é devastador e também para a sociedade, porque vai embora um componente que é parte do tecido nacional”, reflete. “Por cada cristão que vai embora, a comunidade fica mais indefesa, mais debil”, completa.

O religioso acrescenta que em Iraque se vive a sensação de uma eminente guerra civil e, que isso vai finalizar com a divisão do Estado entre os sunnitas (a rama muçulmana que pertence EI), kurdos e “o resto”. Para isso, chama a um governo de unidade nacional que integre a todas as religiões e promova a tolerância numa sociedade que é tradicionalmente tribal.

O sacerdote, que irá a Argentina dentro de duas semanas ou mais para visitar à sua mãe, não tem dúvida em ficar no Iraque apesar do perigo. “A nossa vida é seguir com os cristãos. Nós seguiremos em Bagdá enquanto exista cristãos”, diz convencido e, inclusive desliza: “Eu gostaria, se fosse possível de ficar para sempre em Iraque. Ainda que, é claro, eu estou disposto a ir adonde quer que me mandem“.

AJUDA DO PAPA FRANCISCO

iraque7As citas do  papa Francisco se deslizam nas palavras do Padre Montes, quem diz estar profundamente agradecido com o pontífice argentino por tentar despertar quase a diario atenção sobre o conflito na  comunidade internacional, que lhe faz várias censuras.

Montes tomou como um gesto sem valor o envío a Bagdá do cardeal Fernando Filoni, ex nuncio do Vaticano em Iraque, faz alguns dias, quem levou a menssagem pessoal do Papa Francisco e uma contribuição material de um milhão de dólares.

“O Papa utiliza todos os meios de comunicação para pedir ajuda. É a voz que não cala em defesa deste país. Isto é um grande consolo para os cristãos”, diz o religioso e, aclara que não se comunicou com Francisco porque “o Papa falou com as  pessoas na zona mais castigada”.

Montes lembra as palavras do pontífice quando ele pide uma intervenção extrangeira diante do avance do EI ao afirmar que”é legítimo defender-se diante de um agressor injusto” mas, é crítico com os bombardeios de Estados Unidos, porque o considera “um remendo”.

“Fazem bombardeios para que o Kurdistão não caia em mãos do EI. Está cuidando seus interesses. Não pensa nos pobres cristãos. O que o Papa tem pedido é que a ONU e as potências do mundo tomem a decisão correta de como deter este massacre”, diz e, exige que se investigue e se castigue aos países vizinhos que financiam o EI.

“Um dos grupos mais brutais e assessinos da história segui recebendo ajuda”, acentua com indignação. Nesse momento, lhe vem à cabeça os quatro anos em que, em vão, desejou que os cristãos pudessem viver em paz em Iraque...

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