30° aniversário do Instituto do Verbo Encarnado

No dia 12 de março de 2014, o governo geral de nosso Instituto decidiu integrar a missão em Ushetu, Tanzânia, a nossa provincia religiosa “Nossa Senhora do Desterro”.

Publicamos a crônica que o P. Carlos Walker, superior geral do Instituto escreveu sobre esta importante missão.

Deus os abençõe!

P. Luis Montes, IVE

 

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30° aniversário do Instituto do Verbo Encarnado

Carta do P. Carlos Walker, Superior Geral

 

Faz alguns dias eu tive a graça de visitar, acompanhado pelo P. Emanuel Martelli, nossa missão em Ushetu (Tanzânia), onde desde 2010 trabalham nossos padres e desde 2009 se encontram as Servidoras. Sempre lemos com muita atenção e, com muito prazer o que narram as crônicas que freqüêntemente chegam desde essa missão, mas não é a mesma coisa ler sobre uma missão que estar lá e constatar o narrado de forma pessoal.

 

tanzania12

(Mais fotos AQUI e AQUI – Video da missão AQUI)

 

A missão em Ushetu é uma realidade sumamente atraente para quem orgulha-se de ter vocação missionária. Lá se acha em abundância o melhor que alguém sonhou para seu ministério pastoral: uma quantidade enorme de almas ostensivelmente sedentas de Deus. A parroquia conta com umas 100 mil pessoas, das quais 60 mil são católicas, sendo a imensa maioria jovens e crianças (as familias em Tanzânia normalmente têm entre 7 e 15 filhos).

Entretanto, os números não dizem tudo sobre esta missão. Como eu digo, o que mais atrai neste lugar tão especial é a abertura e o entusiasmo com que as pessoas recebem as coisas de Deus. As pessoas de Ushetu se caracterizam pela sua constante alegria, seu trabalho (aonde se olha se vê campos cultivados), sua generosidade (dão com gozo da sua pobreza), seu talento e gosto pela música, etc. Porém o que mais chama a atenção neste povo é a sua fé e receptividade para com os missionários.

É difícil ir-se de um lugar onde as pessoas que ao dizer-lhes que vão ter que esperar um tempo para a celebração da Missa (que foi de uma 1 hora de espera), já que o sacerdote devia escutar confissões – respondeu com uma verdadeira explosão de alegría, que fazia pensar na comemoração de um gol, ao saber que teriam a possibilidade de confesar-se. É difícil esquecer essa gente que prefere confessar-se de joelhos sobre a terra podendo-o fazer sentados comodamente numa cadeira e, mais ainda quando quem faz isto são mulheres grávidas, cegos, idosos, etc. Gente que tirava os calçados ao aproximar-se do lugar da confissão, em sinal de reverência ao sacramento. Surpreende ver-los praticar com o coro durante longas horas ininterruptas, inclusive sob a luz da lua, para poder cantar melhor na Missa do dia seguinte. Curiosamente, cantavam e praticavam um  hino cujo o texto dizia: Como são belos sobre as montanhas os pés do mensageiro que anuncia a felicidade, que traz as boas novas e anuncia a libertação, que diz a Sião: Teu Deus reina! (Is 52,7). Mais  chamativo ainda é escutar-lhes dizer e repetir enfaticamente: “por favor regressem, rezem conosco no idioma que vocês conhecem, mas rezem conosco…”.

Então não é surpreendente que, durante o curso do século XX, o número de católicos no continente africano haja passado de 1,9 a 130 milhões, o qual equivale a 6,708 por cento de crecimento. E a tendência de crecimento não diminui senão que segui aumentando, seja pelo número de nascimentos como pelo de conversões.

Nossos padres em Ushetu, ao igual que as Servidoras, estão fazendo uma obra verdadeiramente fantástica. Corresponderia escrever outra circular sobre o trabalho de nossos missionários, mas vou referir para isto as crônicas e as fotos que inclusive se podem encontrar no blog da missão.

Ao aproximar-se da data dos primeiros 30 anos da fundação do Instituto, com o transfondo da missão em Ushetu, vem a minha mente muitos pensamentos, fundamentalmente de profunda gratidão e, consequentemente de humildade, de esperança e de confiança nos caminhos inescrutáveis da Providência. Por graça de Deus e, a resposta generosa de nossos missionários, ao decorrer destes 30 anos, o Instituto foi desenvolto e  expandido de um modo que teria sido inimaginável nos inícios.

É Deus quem nos levou a Ushetu, esse lugar tão especial. E, também nos levou a outros lugares, que, como Ushetu, possuem alguma dificuldade. Estando em África, realmente não podia não pensar em algumas missões que nos foi confiadas, tais como Vanimo (Papúa Nova Guineia), Santa Rosa e Charity (Guiana), a Faixa de Gaza e Beit Jala (Palestina), Alepo (Siria), Bagdá (Iraque), King Mariut,  Fayum e Alexandria (Egito), Anjara (Jordania), Kalmet (Albania), Skadosk (Ucrânia), Groenlândia (Dinamarca), Reykjavík (Islândia), Omsk e Jabarovsk (Sibéria, Russia), Dushanbe (Tajiquistão), Shymkent (Kazaquistão), Bagong Barrio (Filipinas), Chiquitos e Oruro (Bolivia), Cotahuasi, Chuquibamba e Cabanaconde (Perú), El Guasmo e El Gualel (Ecuador), Vila Guacuri (Brasil), La Pintana (Chile), Los Juríes (Argentina), Cidade del Este (Paraguai) e, muitas outras. Assim mesmo, pensaba em outro tipo de missões nas que trabalhamos e cujas dificuldades são talvez menos paupáveis a primera vista, mas  que por ser mais sutis são menos reais, mas que para ser realizada a obra da nova evangelização, com todos os desafíos que isto implica.

Um dos aspectos mais atrativos da Igreja é seu caráter missionário. Pela sua mesma natureza, a Igreja é missionária (cf. Ad gentes 2), o qual esta estreitamente relacionado com seu caráter católico e  apostólico.

Mas o fato de que a missão seja sempre tão atrativa não significa que ao mesmo tempo não implique sacrificios. Ao contrário, a missão é um testemunho, um verdadeiro martirio incruento, com a possibilidade, a vezes bem real, de que se transforme em martirio cruento. As cifras dos mártires, particularmente a partir do século XX, falam por si neste sentido.

É por isto que temos o deber de lembrar e reconhecer aqueles que anunciaram o Evangelho, como também aos que o fazem neste momento, segundo nos adverti a Escritura: “Lembrai-vos de vossos guias que vos pregaram a palavra de Deus. Considerai como souberam encerrar a carreira. E imitai-lhes a fé.” (Hb 13,7). Não debemos esquecer jamais que somos tributários da missão apostólica da Igreja, da pregação e do testemunho de muitos de seus filhos mas apreciados.

Por tudo isto, vaja aqui nosso mais sincero respeito, sentida gratidão e profunda admiração a todos nossos queridos missionários que, de um jeito ou de outro, fizeram realidade na sua vida aquilo que indicava o P. Jerónimo Nadal, em relação aos homens da sua Ordem:

“Se deve notar que na Sociedade [os Jesuitas] tem diferentes classes de casas ou moradas. Estas são: a casa do povoado, o colégio, a casa dos professos, e a viagem – e por este último o mundo inteiro vem a ser (nossa) casa”[1].

Muito freqüentemente temos o agrado de escutar de nossos missionários: “estou disponivél para ir aonde faça falta”. E quando fazem falta missionários para um lugar difícil, por graça de Deus, nunca faltam aqueles que se oferecem. Pelo contrário, em consonância com nossa espiritualidade e buscando imitar as virtudes mortificativas de Cristo na Encarnação (cf. Const. 11), para nossa edificação, não faz falta esperar para que os oferecimentos cheguem desde os quatro pontos cardiais. O mundo inteiro, ao que se tem de pregar o Evangelho, efetivamente se transforma deste modo na casa de nossos missionários. São Luiz Maria, na sua súplica ardente pedia justamente isto mesmo: Liberos: sacerdotes livres com tua liberdade, desapegados de tudo… sem bens, sem impedimentos e nem preocupações e, até sem vontade  própia… Liberos: homens sempre disponivéis… sempre prontos a correr e sofrer tudo contigo e por tua causa, como os apóstolos: ‘Vamos também para  morrer com Ele…’”.

Ao celebrar estes primeiros 30 anos do nosso pequeno Instituto, não posso deixar de fazer minhas as palavras do Beato Paolo Manna, referidas aos membros do PIME:

“Eu Admiro, eu amo e eu venero este nosso Instituto, já que mais que um Instituto de missionários, é  um Instituto de lançados ao martirio, não ao martirio de sangue, que se acaba com uma morte pronta e gloriosa, senão muitas  vezes a um martirio prolongado, escondido, doloroso, minando lentamente – e nem sempre tão lentamente! – as existências preciosas, generosas de tantos de seus membros”[2].

No dia 25 de março nos uniremos numa ação de graças que, com “um só coração e uma só alma” (At 4,32), elevaremos ao Céu desde os quatro pontos cardiais!

Encomendamos de um modo especial a Mãe do Verbo Encarnado, sob a advocação da Virgem de Luján e  ao Beato João Paulo II – que em breve será canonizado- todos nossos missionários, nossas obras e nossos projetos. E Que Deus nos dê a todos a graça de estar ao nivel de nossa chamada.

No Verbo Encarnado e sua Santissima Mãe,

 

P. Carlos Walker, IVE

Superior Geral

http://superiorgeneral…verboencarnado.net 

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[1] John O’Malley, S.J., “To Travel to Any Part of the World: Jerónimo Nadal and the Jesuit Vocation”, Studies in the Spirituality of Jesuits 16, n. 2 (Marzo, 1984), 6 (énfasis agregado).

[2] Paolo Manna, Virtù apostoliche, p. 228.

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